Pregadores sofisticados
Na Grécia Antiga o sofista era um tipo de professor que se autodenominava sábio (sophos).
O sofista utilizava técnicas de oratória e retórica a fim de persuadir
seus ouvintes a confiarem em seus ensinamentos e, consequentemente,
lucravam com isso.
Os
rivais dos sofistas eram os filósofos. Estes não se chamavam sábios
(alguns os chamam até hoje de amantes do saber pela junção das palavras
que formam filosofia, mas a bem da verdade não se pode explicar ao certo
o que significa ser filósofo, a princípio é preciso saber que é alguém
que busca a verdade e não se contenta com o engano). Por vezes os
filósofos desmascararam publicamente os sofistas, demonstrando que estes
não compreendiam de fato o assunto que estavam discorrendo. O que o
sofista fazia era envolver seus ouvintes com um belo discurso falacioso
deixando-os confusos, e estes ouvintes logo acreditavam em mentiras como
se fossem verdades.
Na
atualidade brasileira vivemos um retorno ao sofismo. Têm surgido, na
igreja brasileira, vários sofistas da Palavra de Deus. Pregadores que se
fazem sábios e com uma boa oratória e retórica – afirmam que isto é
poder de Deus – convencendo incautos a seguirem seus conselhos
enganosos. Tais pregadores são meros contadores de histórias (e
estórias), cheios de barulho e pouco (ou nenhum) conhecimento real da
Palavra de Deus. Muitos têm, sim, uma voz bela, grave e forte e, sabem
como chamar a atenção do povo, mas, além disso, só resta a esperteza.
O
sofista moderno assim como o sofista grego lança mão de várias
estratégias falaciosas a fim de alcançar o sentimento de seus ouvintes
fazendo o possível para que estes não critiquem o que estão ouvindo. Por
isso afirma: “Sou o ungido do Senhor!” (argumento forte, pois ai
daquele que tocar, criticar, falar mal ,ou, coisas desse gênero do
“ungido”) . Desenvolvem um enredo emocional que conduz o
público ao êxtase e, por ter um conteúdo “divino”, as pessoas acreditam
mais ainda que Deus esteja no “negócio”.
A
pregação neste momento perde o foco bíblico. Isto é, proclamar salvação
ao perdido e fortalecer o salvo. O conteúdo da mensagem passa a ser
algo distorcido até mesmo da realidade, cheio de seres angelicais e
infernais ou de acontecimentos milagrosos na maioria das vezes voltados
para questões financeiras e realização pessoal.
A
rede do sofista está armada. Agora é só aguardar o momento de receber
sua recompensa. A mobilização tem apenas uma finalidade e não é a
salvação. Mas conseguir arrecadar seu suprimento. Por isso o sofista da
“fé” é considerado pragmático, ou seja, se funciona é certo e
verdadeiro. Com isso elabora um novo “método” de “interpretar” as
Escrituras, parte do pensamento de que “se funciona é certo” se é certo
não é pecado, se não é pecado é a vontade de Deus, se é a vontade de
Deus então eu posso e devo fazer a vontade de Deus. Logo se percebe que o
pregador sofista procura enganar até mesmo a ação do Espírito em sua
própria vida.
Há
algo de hilário na questão. O pregador sofista nunca admite que o seja.
Exatamente porque todos os argumentos relativistas e conturbados dos
quais encheu sua própria mente, o fazem acreditar que ou ele tem a
verdade ou ninguém a tem. Assim, não está disposto a ouvir, pois, ele é o
“sábio”. Ninguém pode ajudá-lo. Talvez, nem Deus.
O
perigoso é que o pregador sofista, não re-nasceu assim – se renasceu de
fato. Isso foi acontecendo, seja pelo engano de outros sofistas
modernos na igreja brasileira, seja por não se envolver de fato com a
obra de Deus e o povo de Deus, ou pela necessidade de alcançar fama e
outros bens. Portanto, qualquer um pode se enredar neste caminho
tortuoso. Só os humildes e os que buscam a verdade na Palavra de Deus
conseguem sobrevier a tais caminhos enganadores.
A
artimanha do pregador sofista é grande. A igreja brasileira precisa se
unir contra esse mal. É preciso levantar pessoas que estejam dispostas a
compreender a Palavra de Deus em amor e explicá-la com temor. Buscar a
verdade e não se contentar com argumentos meramente emocionais cheios de
historinhas pra crente dormir (ou ficar bem acordado se enchendo do
“poder”).
Quando
um pregador precisa gritar para demonstrar que está certo ou que tem
autoridade em seus argumentos: cuidado! Quando alguém ao pregar
demonstra afirmativas sem explicá-las biblicamente, ou percorre vários
textos bíblicos sem interpretá-los: cuidado! Quando o texto bíblico é
usado para fundamentar pensamentos próprios e não demonstrar a vontade
de Deus: cuidado! Podemos estar certos de estar diante de apenas dois
tipos de pessoas: um louco idiota ou um sofista moderno.
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O “teólogo” do inferno
Lá
estava ele no deserto. Antes mesmo de seu rival chegar ao lugar da
tentação, ele já se encontrava ali. Talvez tivesse jejuado para
enfrentar seu maior desafio. Havia se preparado através do estudo das
Escrituras. Acreditava ser invencível. Ele era de fato o “teólogo” do
inferno. Seu nome principal é Satanás. O texto de Mateus (4, 1) o
descreve apenas como diabo – do grego diabolos, que significa: acusador, caluniador, difamador.
O
Mestre foi levado pelo Espírito Santo ao deserto. Sabia o que O
esperava. O Tentador estava ali. O Senhor dos Senhores respondeu com
grandeza ao primeiro questionamento do diabo. O Teólogo dos teólogos
enfrentou o Inimigo com as Escrituras Sagradas, desarmando-o em sua
tentativa de fazê-lO usurpar o ser igual a Deus (Fp 3, 5).
Porém,
o Diabo não desistiu e demonstrou ser um “teólogo” e conhecedor da
Bíblia. Ele enfrentou o Cristo em Seu próprio campo de batalha: a
Palavra de Deus.
O
Acusador conduz o Mestre à Cidade Santa e O coloca sobre o pináculo do
templo e demonstra seu conhecimento das Escrituras: “Se és o Filho de
Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: ‘Aos seus anjos
ordenará a teu respeito que te guardem’; e: ‘Eles te susterão nas suas
mãos, para não tropeçares nalguma pedra’ (Sl 91, 11-12, itálico nosso)”.
Uma
verdadeira dialética teológica. Parecia que o Mestre estava em apuros.
Afinal, Seu adversário estava usando as Escrituras Sagradas e, Cristo
veio para cumprir o que as Escrituras dizem sobre Ele. Parecia tudo
correto. O Senhor deveria então fazer o que o Diabo lhe demonstrara.
Enfim, as afirmativas pareciam verdadeiras. Logo a conclusão também o
seria. Se Ele saltasse, os anjos o acolheriam. Mas, fazer isso daria a
vitória ao Diabo.
Jesus,
entretanto, demonstra que o Enganador estava enganado. Sua teologia era
baseada apenas em parte do conhecimento bíblico e não em todo o
conteúdo da Palavra de Deus. A hermenêutica usada pelo Diabo partia de
seus interesses e por isso não estava de acordo com o entendimento
bíblico. Uma interpretação falaciosa e sofisticada. O “está escrito” era
apenas da instância do maligno e não de Deus.
Nesse
momento Satanás sente que todo seu estudo fracassou, pois diante dele
estava um Teólogo Maior. A interpretação que Cristo fez das Escrituras
partiu dos interesses do Pai e não de Sua vontade própria. Isso é
evidente no texto de Mateus.
Satanás
ainda tenta com mais uma afronta. No entanto, o Senhor derrota o
“teólogo” do inferno com mais uma de suas respostas de acordo com a
Palavra de Deus.
“Com isto, o deixou o diabo” (Mt 4, 11), “até momento oportuno” (Lc 4, 13).
O
Diabo sabedor de que não pode derrotar o Cristo, busca vencer os
seguidores do Senhor. Sua “teologia” sofismática arrasta muitos adeptos
para seu pensamento.
As
várias “teologias” falaciosas que vão contra o ensinamento bíblico
(Teologia da Prosperidade, Teologia Positivista, Teologia Liberal e
tantas outras) são nada mais que “teologias” do inferno (Tg 3, 15-16).
Muitos
estudiosos que se utilizam do jargão: “está escrito” formulam teorias
de acordo apenas com seus interesses. Buscam se promover à custa das
Escrituras, criando teses que desafiam o Ensino Bíblico e arrastam
pessoas incautas na fé, levando-as para o inferno.
Qualquer
um que professe tais ensinamentos malignos são de fato “teólogos” do
inferno. Discípulos do “teólogo” infernal: o Diabo.
Postado por Paulo Eduardo Alves de Freitas
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Sobre teólogos e papagaios
Quando era criança tínhamos uma mulata em casa. Não era
necessariamente um papagaio, mas cumpria bem o seu papel em decorar o que
dizíamos repetindo depois. Geralmente, papagaios são assim: repetem boa parte
das palavras que mais dizemos. Estudos mostram que papagaios podem aprender
várias palavras, assobios e outros sons. Eles não são inteligentes, os chamaria
de receptivos.
Depois de crescido (ainda jovem) resolvi estudar teologia.
Fui para um seminário. Confesso, tive professores impressionantes – não dá para
mensurar este adjetivo. Infelizmente, alguns nem sei por que estavam lá –
talvez para testar minha paciência. Porém, insisti e me formei em teologia.
Aulas sempre são aulas. A história da teologia toma conta de
grande parte do conteúdo, isto é informação.
Somente aqueles excelentes
professores – que não estão ali apenas para conseguir sustento, ainda que faça
parte – conseguem conduzir os alunos rumo à instrução.
Todavia, percebi que muitos alunos se alegravam mais com
as informações (repetições de pensamentos de teólogos) do que em serem
instruídos ao pensamento teológico. Nisso surge minha analogia de teólogos
com papagaios.
Papagaios são belos por natureza (mesmo quando são filhotes
esquisitinhos). Mas quando repetem o que dizemos ficamos mais maravilhados
ainda. Parece que aprender a repetir dá um ar de grandiosidade – no caso do
papagaio, esse sentimento fica com seu dono.
Muitos dos alunos que conheci, durante minha caminhada de
aluno, também aprenderam a arte da repetição. A repetição soa como a sabedoria
verdadeira. Quando estes colegas pregavam ou ensinavam em suas igrejas e
conferências, sentia-se neles o ar de superioridade. Porém, repetir não é
saber. Repetir é papagaiar, tagarelar.
Teologar não é meramente repetir o que outros teólogos
disseram. Fazer teologia não é apenas encher-se de informações antigas de
teólogos do passado. Precisa haver mais instrução do que informação. Informação
pode até conduzir à formação, mas apenas a instrução gera transformação. Uma mente teológica, apenas, pode superar o
falatório, e pensar por si mesma.
O teólogo que preza ser chamado teólogo, não se sustenta apenas em concordar com o passado – ainda
que respeite o passado. Ele sempre busca por si mesmo, mesmo que chegue ao
mesmo lugar já chegado anteriormente. Ainda há mais para pensar, há mais para
saber. Essa busca constante faz parte do ser teólogo.
Ter ares de sabedor por repetir informações não faz de
alguém um teólogo – talvez um papagaio (risos). Um teólogo talvez não seja
feito pelo que recebe de informações. Mas sua capacidade em perceber
instruções. Questionar dogmas. Enfrentar a hipocrisia. Não tolerar a letargia
epistemológica. Fugir à mera gnose espiritualista. Aceitar a Palavra de Deus
(Escrituras), porém nem sempre tudo o que se diz sobre a Palavra de Deus.
Pensamentos por mais belos e corretos que sejam ainda são pensamentos, e sempre
podem ser repensados.
Repensar.
Esta é uma capacidade que, particularmente entendo, deve ser cultivada
pelo teólogo. Sempre repensar o que já foi dito e escrito
por outros teólogos - também outros estudiosos. Apenas isso distancia um
teólogo de um papagaio. Aprende
que as informações são úteis, apenas se a instrução fizer parte delas. O
passado auxilia. No entanto, o teólogo não vive no e nem do passado. É um
ser do presente. Que enfrenta problemas presentes com pessoas presentes e reais,
numa igreja atual. Portanto, pensar para hoje, isso faz um teólogo, que me
parece não apenas ser feito por si, mas por todos aqueles que junto a ele
compartilham a graça de crescer no conhecimento e na prática da vontade de
Deus.
Postado por Paulo Eduardo Alves de Freitas
http://www.pauloeduardoaf.blogspot.com
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